VII Semana da Educação da FEUSP
2009
Piá - compartilhando a experiência
Apresentação
O Piá é um projeto de extensão universitária da Faculdade de Educação da USP, de caráter permanente, completando em 2009 doze anos de existência, tendo passado por diversas fases e configurações. Trata-se de um projeto de educação infantil e extra-escolar, subsidiado por um processo contínuo de formação de seus educadores e estagiários, que tem as suas atividades realizadas no bairro da Barra Funda, num clube da prefeitura, o centro educacional e esportivo “Raul Tabajara” (rua Anhanguera, 484).
O projeto é autogerido por um coletivo de educadores e se constitui como um espaço de formação, tanto das crianças quanto dos educadores que ali atuam. Um de seus aspectos mais relevantes é a possibilidade de reformulação e redefinição de seus objetivos, estruturas e ações, a partir da constante reflexão sobre a educação como uma prática social, o que envolve uma perspectiva crítica sobre a realidade e a desnaturalização das relações e valores dominantes em nossa sociedade.
Também se tem como objetivo garantir, participando ou promovendo, espaços de discussão sobre os limites e possibilidades de uma educação para emancipação no atual contexto sóciopolítico e econômico, compartilhando a experiência do coletivo com outros educadores, professores da rede pública, de movimentos sociais e estudantes universitários, seja através de publicações, seja em encontros para troca de experiência ou eventos acadêmicos.
Além das ações junto às crianças, o coletivo também procura realizar atividades que aproximem as mães e pais do processo formativo de seus filhos, compartilhando os princípios que fundamentam as práticas dos educadores e fortalecendo o vínculo do Piá com a comunidade local como um todo. Nesse sentido, foi construída, no início de 2008, uma Biblioteca Comunitária no mezanino da sala em que o Piá está instalado, e que atualmente se volta para a realização de uma biblioteca itinerante, com uma bicicleta – a Bicicloteca do Piá –, e de saraus literários mensais. O espaço do Piá também se constitui como uma Brinquedoteca, aberta diariamente a todas as crianças que frequentam o clube municipal “Raul Tabajara”.
Coletivo de educadores - A autogestão
A autogestão é a forma escolhida para organização de todo o trabalho realizado no Piá. Todas as decisões sobre os rumos das ações são tomadas coletivamente e todos os educadores tomam parte nestas decisões, não havendo posição de hierarquia entre eles, o que possibilita que os educadores sintam-se reais sujeitos dos processos dos quais participam.
Essa forma de organização é valida tanto para as tarefas e funções de gestão, essenciais para garantir o andamento das atividades, quanto para a elaboração e realização do trabalho direto com as crianças, e se insere numa concepção de trabalho educativo como sendo coletivo e com intencionalidade, o que se difere de uma junção de aulas e professores que não se relacionam e nem compartilham de reflexões sobre a formação das crianças.
A importância da não existência de hierarquia entre os integrantes do coletivo está diretamente ligada à intenção de desconstruir a relação patrão/empregado, coordenador/coordenado, normalmente vista como algo “normal”, passando-se despercebida ou sendo encarada como natural sua faceta opressiva. Com a superação da relação patrão/empregado chega-se mais perto da possibilidade real do posicionamento crítico de todos, uma vez que o medo de ser despedido e perder o “ganha pão” não está em jogo. Também como referência para as crianças que vivenciam o dia a dia do Piá esse tipo de relação horizontal é de fundamental importância. Assim, elas crescem, não apenas ouvindo o discurso de luta contra a opressão e exploração do homem pelo homem, mas também vivenciando uma tentativa real de se realizar esse sonho.
Outra questão importante na forma de organização do coletivo de educadores do Piá é a compreensão, por parte de cada integrante, da totalidade dos processos envolvidos na concretização desse espaço de educação. É nesse sentido que todos os educadores, além de planejarem e desenvolverem atividades junto às crianças também, desempenham tarefas de gestão, trabalham na cozinha preparando o almoço e o lanche e fazem a limpeza dos espaços utilizados. Dessa forma garante-se que não se realize apenas uma parte do todo de forma alienada. A compreensão do todo é imprescindível para que todos possam opinar e decidir a partir da realidade vivida e conhecida. Para que essa compreensão seja ainda mais abrangente, procura-se adotar um sistema de rotatividade das inúmeras funções de gestão.
Outra discussão que permeia a divisão de tarefas no Piá é a diferença gritante no valor atribuido ao trabalho manual e ao trabalho intelectual em nossa sociedade. Tal diferença tem origem numa falsa idéia de iguais oportunidades, que justificaria o mérito de um posicionamento diferenciado de uma pessoa em relação à outra. A lógica da meritocracia acaba por fazer acreditar que o trabalho de algumas pessoas, na verdade de uma maioria, tem menos valor que o de alguém que pôde se desenvolver intelectualmente dentro das grandes instituições de ensino, por puro empenho e merecimento. A oposição a essa lógica não se trata de uma negação da cultura letrada e sua importância, mas sim de uma repulsa à coisificação dos seres humanos, transformados em objetos com maior ou menor valor de mercado. A progressiva intelectualização e especialização de alguns, atividade que requer tempo para se exercer, muitas vezes só é possível graças à exploração do trabalho manual de outras pessoas. A partir da experiência do Piá, em que todos realizam todos os tipos de trabalho, pode-se inclusive questionar se a organização da cozinha, compras, preparação das refeições e a faxina são realmente atividades puramente manuais.
O coletivo de educadores do Piá é constituído por pessoas das mais diversas formações, acadêmicas ou não. Além de estudantes e ex-estudantes universitários de diversas áreas, com o passar dos anos, foram juntando-se ao coletivo mães de crianças do Piá, que não cursaram ensino superior. Na relação entre pessoas com formações tão diferentes, muitas contradições saltam aos olhos e podem ser pensadas e elaboradas de maneira contínua. Contudo, é preciso ter clareza que, por mais que tentemos e realmente construamos um espaço de resistência às relações de opressão e exploração, estas estão ainda bem longe de deixar de existir e agredir nossas vidas. O discurso teórico sobre as mudanças que queremos não pode nunca abafar, simplificar ou dar como resolvidas as contradições que vivemos.
Foi possível perceber que o simples fato de organizar o trabalho na forma de um coletivo autogestionário não garante que as relações de dominação desapareçam por completo. Somos, muitas vezes, dominados pelo próprio discurso ao qual fomos submetidos a vida toda, que classifica, hierarquiza, discrimina, subjulga etc. É preciso que essas questões estejam sempre na ordem do dia e que se preserve um espaço de real escuta, para que estas não sejam tomadas como resolvidas, quando sabemos que nossas práticas serão sempre afetadas pelos padrões de comportamento que prevalecem em nossa sociedade.
Espaço de Educação Infantil e Extra-escolar
As atividades de Educação Infantil e Extra-escolar acontecem concomitantemente, sendo que, entre outros aspectos, o que diferencia um do outro é o fato da criança estar ou não em idade escolar e frequentando a escola regular. Em ambos, as crianças e educadores seguem, de 2ª a 6ª, das 11h às 17h, uma rotina que inclui preparação do almoço pelas(os) esducadoras(es), chegada das crianças, hora do almoço, escovação de dentes, roda de conversa, leitura de histórias, tempo de livre brincar, atividade dirigida dividida em grupos menores, participação nas atividades esportivas do CEE Raul Tabajara, lanche e saída. Essa organização do tempo, no entanto, deve ser flexível, podendo ser modificada sempre que necessário. Dessa forma, procura-se definir a rotina em função das finalidades do projeto e não o contrário, o que consistiria em automatizar o cumprimento de procedimentos e horários.
Roda de conversa
Trata-se de um momento em que todas as crianças estão presentes e que, além de se constituir como rito de chegada, tem como objetivo proporcionar um ambiente de conversa coletiva, em que se estimula a fala e a escuta, em que as crianças podem contar suas histórias que trazem de casa, da rua, ou mesmo da sua imaginação. O papel dos educadores nesse processo é o de ajudar as crianças a conseguirem se colocar diante das outras, traçando suas narrativas, e ajudar os que estão ouvindo no aprendizado da escuta antenciosa e respeitosa. Uma vez que o Piá se localiza dentro de um equipamento público da prefeitura, frequentado por outros usuários, a roda também desempenha a função simbólica de ser uma referência de pertencimento ao grupo de educadores e crianças do Piá. Nesse momento da rotina procura-se realizar também alguma atividade de letramento, através de leituras de histórias e brincadeiras que estimulem a cooperação entre as crianças de diferentes idades, ou brincadeiras de roda, contribuindo para a ampliação e manutenção de um repertório desse tipo de brincadeira.
Livre-brincar
No Piá considera-se de fundamental importância o tempo livre. Na educação formal, quando se inicia o processo de alfabetização, e às vezes ainda antes do ingresso no ensino fundamental, deixa de se dar a devida importância às brincadeiras e ao tempo livre para o desenvolvimento das crianças. Por ocasião da um dos encontros de formação do coletivo de educadoras(es), as educadoras que têm seus filhos matriculados na escola pública e no Piá, lembraram que chega-se ao cúmulo de durar não mais do que 15 minutos o intervalo, recreio ou parque.
No Piá, esses espaços de tempo são encarados como fundamentais para a socialização e autonomia das crianças. Na escola, o intervalo de apenas quinze minutos é, muitas vezes, o único momento em que a criança pode realmente escolher o que vai fazer, sem ser conduzida de sala em sala, de lição em lição por professores, sinais e funcionários que vigiam os corredores, sendo mesmo assim bastante limitadas as suas possibilidades.
O tempo livre é o momento em que as crianças aprendem a se relacionar com as outras pessoas sem a necessária mediação de um educador, o que não quer dizer que este não possa intervir, mediando conflitos que apareçam de forma a provocar reflexões importantes sobre eles, ou mesmo interagir, sendo chamado para brincar junto com as crianças, ou até mesmo propondo algo que gostaria de fazer fora do momento de atividade dirigida. Trata-se de um tempo que permite o entendimento de regras sociais, assim como o questionamento das mesmas.
A questão da autonomia se coloca de maneira central quando se pensa o tempo livre. Uma vez o espaço pensado e organizado para apresentar uma variedade de possibilidades de atividades, as crianças escolhem o que vão fazer e com quem. Nesse sentido a sala do Piá se organiza em “cantinhos”, como o “cantinho da casinha”, o “cantinho da leitura”, o “cantinho das fantasias”, do “cineminha”. Além disso, elas podem escolher um jogo, cd, brinquedo ou material para desenhar, ou correr, jogar futebol, pular corda, brincar no parquinho ou subir nas árvores do espaço externo à sala, no clube municipal em que o Piá está instalado.
Outro ponto importante é a valorização da brincadeira como linguagem através da qual a criança compreende o mundo em que vive e que, assim como as outras, possibilita a elaboração e expressão das questões que se colocam nesse processo. Brincando de casinha, por exemplo, a criança exterioriza o que entende do papel social da mãe, do pai, dos filhos e coloca seu próprio imaginário em diálogo com os das outras crianças com quem está brincando. Não se pode esquecer que é preciso chegar à muitos acordos para se brincar de faz-de-conta. A observação desses momentos por parte do educador pode ser muito rica. Através dela, é possível compreender o imaginário que cerca as crianças e, assim, estabelecer um diálogo que contribua com a elaboração das visões apresentadas.
Também foi bastante discutido pelo coletivo de educadoras(es) a importância de se garantir e incentivar um repertório de brincadeiras que vão na contramão do bombardeio de cultura de massa ao qual as crianças estão submetidas nos dias de hoje. O lugar da criança autônoma, ativa e coletiva que se dá no brincar, que corresponde ao antigo “brincar na rua com os amigos”, é cada vez mais substituído pelo lugar do espectador passivo da televisão, que pouco reflete sobre o imaginário entre outras coisas consumista e conformista transmitido por ela; ou pela criança solitária, que se relaciona apenas de maneira virtual com o mundo, na frente da tela de um computador.
Atividade Dirigida – Eixo Temático
As atividades dirigidas são realizadas todos os dias, com grupos menores de crianças, em momento bem definido, e são aquelas em que o educador traz uma proposta previamente pensada e planejada. Esse planejamento segue o que é chamado de Eixo Temático. Trata-se de um tema que desempenha o papel de fio condutor que vai costurando as diversas atividades propostas, contemplando as linguagens escrita, oral, plástica, musical, cênica e corporal, de forma integrada. A escolha do Eixo Temático pode acontecer semestral ou anualmente e tem como objetivo trabalhar as diversas linguagens de forma integrada e com uma intencionalidade clara para o coletivo de educadores. Busca-se partir de questões da realidade próxima do grupo de crianças, através de abordagens que contribuam para a formação das crianças de forma contextualizada e para a compreensão mais ampla da realidade. No ano de 2008, o eixo temático foi da história da Barra Funda, bairro onde está localizado o Piá, atrelada à sua própria história, passando também por questões como a infância, as condições de trabalho e moradia, as histórias de vida das crianças e suas famílias.
A partir da avaliação coletiva da utilização de Eixos Temáticos no trabalho com as crianças, percebeu-se algumas dificuldades nessa forma de trabalho. Entre estas podemos destacar a dificuldade de adaptar a todos os grupos de crianças, de diferentes idades, o mesmo Eixo Temático; a de não tornar as atividades repetitivas e cansativas, tanto para as crianças quanto para os educadores; e a de realizar com autonomia uma atividade muitas vezes idealizada por outro(s) educador(es), a partir de pressupostos e habilidades nem sempre familiares para todos, uma vez que o coletivo de educadores do Piá abrange pessoas com as mais diversas formações. Desta última desdobram-se algumas questões. Como planejar atividades com as crianças sem que os conhecimentos acadêmicos prevaleçam sobre as habilidades e conhecimentos de quem nunca passou pela universidade? Como fazer com que todos se sintam sujeitos do processo de planejamento e realização das atividades, em uma sociedade em que os preconceitos e as naturalizações das posições sociais nos são ensinados desde cedo? Mesmo num processo coletivo e autogestionário, que pretende ir na contramão dos mecanismos de dominação presentes em nossa sociedade, foi possível perceber que a simples prática de um planejamento coletivo não garantia a dissolução do lugar daqueles que pensavam e daqueles que mais executavam do que se sentiam a vontade para colocar para o grupo sua opinião “pouco fundamentada”. A partir dessas questões nos propusemos, em 2009, a experimentar novas formas de planejamento das atividades, na busca contínua de caminhos para a solução de algumas delas.
Grupos de crianças
Os grupos de crianças são divididos especialmente para os momentos de atividade dirigida levando-se em consideração aspectos como a idade das crianças, desenvolvimento da oralidade, relação com as diversas linguagens artísticas e com a leitura e escrita, e procurando-se configurar grupos coesos no que diz respeito a privilegiar o desenvolvimento das habilidades e reflexões de cada criança e do grupo como um todo. Nesse sentido, pode-se dizer que há muita flexibilidade para a definição dos grupos, que permite o respeito às diferenças de tempo de aprendizagem e amadurecimento de cada criança. O nome de cada grupo é escolhido pelas próprias crianças, não havendo nenhuma menção a números ou qualquer outro tipo de nomenclatura que se remeta a etapas fixas e hierarquizadas de educação. Pode haver, portanto, num mesmo grupo, crianças que frequentam a escola formal - integrantes do grupo de crianças do Espaço de Educação Extra-escolar - e crianças que ainda não estão em idade de obrigatoriedade escolar – que integram o Espaço de Educação Infantil do Piá.
São três, atualmente, os grupos de crianças: os Leões (menores), os Tamanduás (intermediário) e os Pássaros (mais velhos).
O trabalho com o grupo dos Leões se desenrola no contexto da fase inicial da vida social da criança, em que esta começa a se perceber como parte integrante de uma relidade, já elaborando as experiências vividas através do lúdico. Esse período é muito marcado pelo desenvolvimento da oralidade e pela ampliação de um imaginário que dá sentido aos elementos da realidade com os quais as crianças tomam contato. A partir da escolha de um tema, esses aspectos são trabalhados principalmente através de pequenas rodas de conversa e um repertório de contação de história e músicas, conjugado com momentos de exploração sensível das diversas linguagens artísticas como a dança e as artes visuais. No trabalho com essas crianças costuma-se fazer um recorte de um tema maior, escolhendo um ou mais elementos que dêm maior concretude às atividades, permitindo a adaptação das mesmas aos mais novos. Quando escolhemos o eixo-temático sobre a Barra Funda, por exemplo, focamos na figura do trem, elemento importante na história do bairro e que possibilitou o trabalho com uma variedade de histórias, músicas, poemas, passeios, jogos simbólicos etc.
O grupo dos Tamanduás é formado principalmente por crianças que entraram recentemente na primeira série da escola formal e outras que logo estarão ingressando no sistema de ensino, na grande maioria dos casos, em escolas públicas da região. Com esse grupo, prioriza-se a realização de atividades que trabalhem a leitura e a escrita, dentro de um processo de letramento mais amplo, concebido como o aprendizado de leitura do mundo em que vivemos e como nos relacionamos com ele. Há grande preocupação com a condução do processo de aquisição da linguagem escrita sem a desvalorização das outras linguagens, sendo que todas estas se integram na aprendizagem desta primeira. Os momentos de atividade livre também desempenham papel de extrema importância no que diz respeito à valorização da brincadeira, do lúdico. Procura-se com esse trabalho diminuir o trauma da passagem da Educação Infantil, marcada pelo lúdico e pelas artes, para os primeiros anos do Esino Fundamental, onde, em geral, se valorizam apenas a escrita e a leitura e quando as crianças passam a ficar a maior parte do tempo sentadas. É nesse momento que muitas crianças passam a rejeitar a prática do desenho, percebendo que não é ela a mais valorizada por sua professora e param de desenhar, sendo comum encontrarmos adultos que desenham exatamente como desenhavam nessa fase de suas vidas.
As atividades realizadas com o grupo dos pássaros, formado pelas crianças mais velhas do Piá, que já frequentam a escola, procuram aprofundar reflexões críticas sobre a sociedade em que vivemos e dar continuidade ao processo de domínio da linguagem escrita como instrumento de compreensão e expressão dessas reflexões. Entende-se a importância do domínio dessa linguagem, não como manutenção do uso desta como forma de dominação de um grupo social sobre outro, mas como possibilidade de subversão dessas relações. Com esse grupo também são valorizados os trabalhos artísticos, como forma de desenvolvimento da sensibilidade e construção da identidade das crianças, assim como de compreensão e elaboração de suas leituras de mundo, destacando-se as atividades de teatro e dança.
Mistura de idades
Outra característica muito importante no trabalho educativo realizado no Piá é a mistura de crianças de diferentes idades num mesmo espaço físico e de tempo. Nessa perspectiva, o foco da formação das crianças não se concentra exclusivamente na figura do educador. Considera-se que a convivência com aquele que encontra-se em outra fase da vida propicia o desenvolvimento de diferentes habilidades e é fator decisivo na socialização das mesmas. Podemos citar como exemplo o fato de que as crianças mais novas, com idade mais próxima dos dois anos, chegam ao Piá muitas vezes sem saber falar, ou ainda numa fase bem inicial do aprendizado dessa linguagem. Nesses casos, é possível notar a importância que as crianças mais velhas, sempre interessadas em interagir com os mais novos, têm para esse aprendizado. Além disso, é possível notar uma relação de cuidado que se estabelece das crianças mais velhas em relação às mais novas, muitas vezes com preocupações ligadas a aspectos educativos.
Formação de educadores
No Piá as ações com as crianças e com a população local sempre foram concebidas como sendo indissociáveis de um processo de formação contínuo também dos educadores que constituem o coletivo. Nesse sentido, durante os quase doze anos de atividades, o Piá se preocupou em criar espaços de formação voltados aos próprios educadores do coletivo; para a formação da população do entorno; e também voltados para professores de escolas públicas, educadores de movimentos sociais, estudantes universitários e educadores em geral. Entende-se que os educadores, assim como qualquer pessoa, adulto ou criança, estão em processo de formação, o que se prolonga por toda a vida. Questiona-se, a partir dessa visão, a falsa impressão de que o fato de se ter conquistado durante a vida um diploma universitário faz de qualquer pessoa alguém plenamente formado para exercer determinada função, assim como a afirmação do contrário. A educação pautada nos diplomas, que começa no momento em que se ingressa na escola, se apresenta como uma mercadoria, algo que se pode colocar valor em dinheiro, assim como atribui valor monetário às pessoas, sem corresponder necessariamente a uma formação profunda e emancipadora de sujeitos.
A formação dos educadores, não pode se reduzir ao estudo de metodologias de ensino ou em pensar a educação desconectada do entendimento da sociedade em que vivemos. É preciso pensar no que ensinamos e como isso se relaciona com a forma que pensamos o mundo, suas determinações e nossos sonhos de mudança, para depois pensarmos de maneira autônoma e criativa como trabalhar com as crianças. O educador não pode ser apenas aquele que conforma um conteúdo à uma forma, sendo os dois pré-determidos de maneira externa e burocrática. Nesse sentido, foi possível perceber a importância da formação do educador como sujeito crítico e com uma compreensão cada vez maior da sociedade, em oposição ao conhecimento minucioso das diferentes correntes pedagógicas, questão que apareceu recentemente nos grupos de estudos e momentos de planejamento do Piá. Além da importância de se pensar na escolha de conteúdos que vão na contramão de uma educação para a espacialização fechada em si mesma, as reflexões e valores que decorrem dos momentos de formação dos educadores tenderão a aparecer mesmo no trabalho de temas que, aparentemente, não carregam conteúdo crítico. Nesse sentido, o estudo de metodologias de ensino no Piá não se dá como receitas a serem seguidas ou linhas pedagógicas às quais o trabalho educativo se alinha, mas sim como conhecimentos com os quais se pode dialogar para pensar a prática do educador.
Diversas formas de organização desses espaços de formação já se deram ao longo da história do Piá, de acordo com as condições materiais e intenções do coletivo. Atualmente são realizados encontros de planejamento e preparação do espaço para o início de cada semestre de atividades; encontros de avaliação do semestre no final de cada um; grupos de estudos pelas manhãs, nos quais os educadores do coletivo se dividem para estudar juntos e planejar o dia-a-dia com as crianças; uma vez por mês, encontros de formação com a presença de todo o coletivo de educadores, em que são compartilhadas as discussões realizadas nos grupos menores e onde é possível elaborar de forma coletiva a experiência do Piá. Também uma vez por mês são realizados os saraus do Piá, espaço aberto para adultos e crianças que propicia o compartilhar de visões de mundo e sensibilidades através das artes. Sempre que possível, também são organizados, aos finais de semana, espaços de formação aberta tanto para os pais das crianças como para educadores interessados e dos quais também participam os educadores do Piá; e já há muitos anos o Piá recebe estagiários interessados em conhecer a experiência, sendo em sua maioria estudantes da USP.
Além desses espaços, há as reuniões semanais do coletivo de educadores, momentos nos quais se discutem as mais diversas decisões necessárias para a realização das atividades e se vivencia com maior intensidade a experiência da auto-gestão.
Renata Saito
Pelo Coletivo de Educador@s do Piá