Relato do projeto “Dança das Borboletas”,
realizado no primeiro semestre de 2009.
Tudo começou com uma vontade de realizar atividades integradas de literatura e dança que eu (Carol zu) e a Bia tivemos. A Bia dá aulas de dança para todos os grupos, e eu, apaixonada que sou pelas palavras em seu estado poético, sempre trouxe o texto literário para minhas atividades com as crianças: muitos poemas, algumas histórias, uma brincadeira com palavra aqui, outras letras escritas ali...
Naquele semestre, o grupo com o qual eu realizava atividades semanalmente era o das crianças entre quatro e sete anos, cujo foco principal do nosso trabalho era o letramento, tendo em vista a inserção das crianças no universo da escrita, uma vez que se aproxima para elas o momento de entrada na escola, e também que aumenta, cada vez mais, nos pequenos a vontade de escrever o próprio nome, de poder ler um livro sozinho, de se expressar por este meio.
Depois de muita conversa entre nós, educadoras, as ideias foram surgindo... das discussões sobre a grande transformação pela qual aquele grupo passava, pensamos em trabalhar o ciclo da vida de um bicho que sofre metamorfose; da percepção de como se principiava a construção da identidade dessas crianças, encaramos isso como um aspecto fundamental de cada atividade pensada; da observação de como parecia, às vezes, tão difícil para eles a concentração necessária para segurar um lápis em cima do papel, e mais estranho ainda entender como as coisas da vida podiam ser representadas na combinação de algumas letras, criamos objetos a partir das formas materiais de cada palavra estudada... Com tudo isso, planejamos e realizamos as atividades que brevemente conto a seguir:
A primeira atividade de literatura e dança que fizemos com esse grupo foi a partir da leitura do livro “Bruxa, bruxa, venha a minha festa!”, que é muito lido pelas crianças que ainda não sabem ler... é isso mesmo, por trazer uma mesma frase repetida variando apenas o animal que a bruxa convida, sendo que este está desenhado na grande página do livro, eles rapidamente decoram tudo, inclusive a ordem dos bichos e até imitam o modo que os adultos leem para eles. Depois do aquecimento que inicia a aula de dança e da leitura do livro por uma criança, cada um expressou com o corpo um bicho que havia no livro. Foi muito divertido e de pronto sentimos que essa experiência poderia ser muito interessante para eles e para nós, que há muito desejávamos trabalhar juntas.
Foi então que a Bia trouxe a brilhante ideia de fazer com eles a coreografia do ciclo da vida de uma borboleta, que ela mesma montou e trabalhou semanalmente com eles até que se tornasse uma bela dança, com todos os passos por eles compreendidos, sua ordem, o momento de dançar junto e o de se expressar individualmente, o ritmo, a sintonia com a música que tocava...
No processo de construção da coreografia, apresentamos ao grupo diversos materiais sobre as borboletas, vídeos, livros, fotos, etc., e aconteceu até deles encontrarem um casulo debaixo de um banco do clube... foi incrível ver os olhinhos deles impressionados por (re)conhecer no mundo algo que estava sendo objeto de investigação, um novo significado trazido pelo conhecimento em construção... Fizemos também uma grande asa com papel cartão, colorida por eles com tinta guache, e que, amarrada com elástico nas costas deles, tornava-se parte do figurino da dança.
A coreografia seguia a vida de uma borboleta do início ao fim: primeiro, os ovinhos todos juntos e quietinhos... até que, movidos pela batida de uma palma, se quebram e saem rastejando pela sala um monte de pequenas lagartas, se esticando e encolhendo de todos os modos possíveis, comendo os frutos de uma árvore, sem usar as mãos, nem os pés para levantar! Então, cada uma escolhe um canto, onde se tornarão casulos. Nesse canto, os espera aquela asa feita por eles mesmos. Contam até dez enquanto prendem as asas nas costas e saem dando pulinhos de um voo principiante, logo, logo, aprendem a voar, rodam pela sala, pousam e, enfim, morrem...
Paralelamente aos ensaios, fui pouco a pouco criando as atividades que tinham o objetivo de dar vida às palavras-chave do ciclo da borboleta, que eram também as partes da coreografia: ovo, lagarta, casulo, borboleta.
A primeira coisa que fiz foi ler para eles um poema muito gracioso do Vinicius de Moraes, que está no livro Arca de Noé: “As borboletas”. Conversamos sobre a importância do silêncio para se ouvir um poema e também contei a história desse livro, o meu primeiro livro de poesia! Foi de admirar como ficaram todos muito atentos e envolvidos, principalmente eles, que eram crianças pra lá de agitadas.
Decidi começar com a palavra BORBOLETA, que escrevi num papel bem grande com letra bolacha, depois recortei os dois B’s, e juntando-os, mostrei como pareciam asas de uma borboleta. Cada um fez um B em meia cartolina, fez o molde copiou e recortou outro B. As duas letras que agora eram asas foram unidas por uma tira em que atrás eles escreveram a palavra inteira (borboleta). Enquanto produziam sua borboleta, eles começaram a dar nomes para sua “cria” e combinamos que todas elas nasceriam na semana seguinte, em que pintamos com tinta plástica e penduramos pela sala do Piá.
Então, fizemos o movimento contrário do ciclo e a próxima palavra foi CASULO. Esta, escrevemos no papel com letra de mão e depois colamos barbante por cima. Esse barbante, enrolamos em um bexiga, passamos cola e depois de secar e estourar a bexiga, tínhamos feito um casulo do qual saia a palavra que o nomeia. Mostrei para eles também o belíssimo livro de imagens de André Neves, do mesmo nome: Casulos.
Daí fomos para LAGARTA... contei para eles a história do livro O caso da lagarta que tomou chá de sumiço (de Milton Celio de Oliveira Filho). E escrevemos a palavra num papel bem mole, que imitava o movimento de “estica-encolhe”, que eles já sabiam muito bem, de tanto fazer no chão durante a dança.
Por último, o que era o começo da coreografia: o OVO. Exploramos bastante a graça que há em um palíndromo e brincamos com palavras e frases que são assim: podem ser lidas de trás para frente que o seu sentido se mantém. Foi divertidíssimo e muito curioso para eles aprender o encanto próprio que possuem essas palavras. Fizemos então um desenho com a palavra OVO escrita várias vezes, assim, como um poema concretista:
OVOVOVOVOVOVOVO
OVOVOVOVOVO
OVOVOVOVO
Colamos isso em umas folhas de árvores que estavam caídas no bosque do clube, tentando imitar como ficam mesmo os ovinhos das borboletas. Essa produção foi uma boa deixa para apresentar a eles alguns livros de poesia visual para crianças de nossa Biblioteca Comunitária.
A dança foi apresentada no final de semestre para os pais, antes da “Pernoite”, atividade que fazemos a cada semestre, no último dia de Piá antes das férias, em que as crianças dormem no espaço, momento também em que fazemos a reunião de fechamento com os pais e apresentamos os trabalhos desenvolvidos com seus filhos. Essas palavras-objetos fizeram parte do cenário no dia da apresentação.
A maioria das crianças desse grupo não sabia escrever o próprio nome no inicio do semestre, e foi notável como um trabalho de letramento tão profundo e cheio de brincadeira teve grande importância para a relação que cada um deles passou a estabelecer com a palavra escrita.
Carolina von Zuben, educadora do Piá desde setembro de 2007.